Sapatos
Hoje estou um tanto supérflua.
Sinto-me supérflua toda vez que compro um novo par de sapatos.
Atravesso ruas para vê-los nas vitrines. Me encanto, provo, desaprovo, provo outros, me convenço e levo porque quando não me apertam, me dão muito prazer!
No armário, enfileirados, compõem um quadro que me encanta.
Não me perguntem para que tantos sapatos, pois vivo a me perguntar por que eles nunca combinam com minhas roupas e sempre necessito de outro.
Há! Quem me dera nunca ter que frear minha vontade de comprar todos os que gosto, e olha que são muitos. Tem os espalhafatosos. Olho na vitrine e me imagino dentro deles e você rindo de mim, se ridicularizando ao meu lado, então, não os compro. Tem os sociais, estes eu provo vários, perambulo pela loja, me delicio diante do espelho.
Só eles bastam para me por em pose de passarela. As ancas já vão de um lado a outro sem esforço. Posso perceber os olhares dos homens ao me ver passar balançando charmosamente os quadris, exibindo meu rebolado proporcionado pelos finos saltos.
Tem os leves, estes escolho depois de ter usado um que me deixou em bolhas, geralmente já os troco na loja mesmo, e saio de lá aliviada, porque nada é mais doído que sapato esfolando uma bolha no pé. De tão ardido, parece que a bolha já vem com salmoura em sua água.
Adoro vê-los descalçados pela casa, mas odeio juntá-los e mais ainda quando tropeço neles. Gostaria de ter uma secretária só para sapatos, para conservá-los e lembrar-me dos que doem ou amaciá-los para mim.
O que comprei hoje é especial, substitui a falta que você deixou ao partir, há nele uma inexplicável felicidade que compensa a sua perda. Quando algo se vai, sapato novo vem. Não se chateie com minha sinceridade porque não é só a você que eles substituem, mas todos os momentos de incertezas.
Quando algo falta, é hora de comprar sapatos novos.
É mais doído se desfazer de um par de sapatos do que de você, porque o sapato nunca mais será meu depois de doado, já você quem sabe voltará amanhã para mais um tempo até desgastarmos nossas saudades.
De longe comparar nosso relacionamento com o que sinto pelos sapatos, mas é a compra deles que preenche o vazio que fica em mim. São eles que sem pedir nada em troca, apesar dos calos, me proporcionam um prazer indescritível.
Um comentário:
Sem dúvida, faço parte desse texto!
Pude imaginar você com os sapatos e eu comentando sobre eles, ou até mesmo, reclamando de quando estão espalhados pela casa!
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